Veja também
H
á algo curioso acontecendo com a forma como olhamos para o próprio corpo. Antes, ele era apenas o que nos sustentava, às vezes cansado, às vezes cheio de energia, mas sempre humano. Agora, parece ter se tornado um problema a ser resolvido.
Nas redes sociais, homens e mulheres acordam antes do sol para mergulhar em banheiras de gelo. Medem o sono com aplicativos, controlam cada caloria, ingerem cápsulas que prometem desacelerar o tempo. Chamam isso de “reset corporal”, como se fosse possível apertar um botão invisível e recomeçar mais jovem, mais produtivo, mais eficiente.
Mas o corpo não é uma máquina. Ele não reinicia.
O nosso corpo acumula noites mal dormidas, sim, mas também memórias. Acumula o cansaço de dias longos, mas também o prazer de uma refeição sem culpa. Acumula o tempo e talvez seja justamente isso que nos torna quem somos.
Enquanto alguns perseguem protocolos quase futuristas, outros descobrem, que caminhar no fim da tarde ajuda mais do que qualquer suplemento caro. Que dormir bem ainda é insubstituível. Que desacelerar, ironicamente, pode ser o verdadeiro segredo para viver mais.
Talvez o problema não esteja na vontade de viver melhor, isso é legítimo e bem vindo. O que assusta é a ideia de que viver melhor exige viver em constante vigilância. Como se o corpo fosse um inimigo a ser controlado, e não um aliado a ser compreendido.
No fim, a promessa de “reset” revela mais sobre o nosso tempo do que sobre a nossa saúde. Queremos corrigir o que não aceitamos: o envelhecimento.
Mas o corpo insiste em lembrar todos os dias que não fomos feitos para reiniciar.
Fomos feitos para continuar